Novelinhas de Fruta: a misoginia disfarçada de desenho
Vídeos curtos feitos com IA, com personagens de frutas humanizadas e estética de Pixar, escondem violência, sexualização e discurso da machosfera. E o público mais impactado é o mais vulnerável.
Você já ouviu falar em Moranguete, Abacatudo ou Bananildo? Se a resposta é não, mas tem adolescentes ou crianças por perto, vale prestar atenção. Esses personagens são protagonistas das chamadas Novelinhas de Fruta, vídeos curtos produzidos com inteligência artificial que viralizaram nas redes sociais e estão moldando a forma como uma geração inteira pensa sobre relacionamentos, mulheres e violência.
À primeira vista, parecem inofensivos. A estética lembra Disney e Pixar, as trilhas são emocionantes, os personagens fofos. Mas, debaixo dessa embalagem cativante, mora um problema sério: enredos cheios de traição, agressões, sexualização e estereótipos misóginos, sem qualquer mensagem que reprove esses comportamentos.
O mal não acaba, ele se reinventa
Quem acompanha a internet lembra dos personagens de brainrot italiano que viraram febre entre crianças em 2025: Tung Tung Tung Sahur, Bailarina Capuccina, Tralalero Tralala, Bombardino Crocodilo. Pareciam bobinhos, mas em muitos vídeos protagonizavam atitudes nada inocentes e influenciavam o público infantil.
Agora, esse formato foi reinventado, com um novo público-alvo, jovens e adultos, e uma nova roupagem: as Novelinhas de Fruta. A fórmula é simples e altamente viciante. Vídeos curtos, em formato de novela, feitos com IA, com personagens de frutas humanizadas vivendo dramas intensos: traição, ciúme, conflitos, agressões e situações extremas.
O padrão é o mesmo (e ele é misógino)
Em quase todos os vídeos, as personagens femininas seguem o mesmo roteiro. São estereotipadas, associadas à traição, vistas como interesseiras e infiéis, e bastante sexualizadas. Em alguns vídeos, chegam a sofrer violência e serem agredidas. E aqui mora o ponto mais grave: não há qualquer mensagem moral que reprove esses comportamentos. Pelo contrário, existe uma romantização.
As historinhas associam mulheres que trabalham a serem mais suscetíveis à traição, colocando-as sempre no papel de "vilãs". Já os personagens masculinos seguem dois moldes: o "cara legal", bonzinho, gentil, que sofre, ou o "chad" musculoso, sedutor, que mesmo num triângulo amoroso nunca é responsabilizado por uma traição.
Some a isso outros preconceitos que aparecem nos enredos, como racismo e homofobia, e você tem uma salada de frutas propositalmente viciante onde tudo é gratuito e nada é questionado.
Discurso redpill em formato de desenho
Não é coincidência. As Novelinhas de Fruta surgem logo após a discussão sobre conteúdo redpill estourar na internet e vários criadores que promoviam esse discurso terem seus perfis derrubados. O que antes era dito abertamente em vídeos de "coach masculino", agora aparece embalado em personagens fofinhos.
As dinâmicas mais defendidas na machosfera estão lá, dentro do enredo: a hierarquia entre homens (beta x alfa, o bonzinho traído e ridicularizado contra o bem-sucedido, pegador e viril) e a visão de que mulheres são infiéis, manipuladoras e interesseiras. Mudou a embalagem, a mensagem é a mesma.
Por que os jovens são os mais impactados
Os jovens brasileiros estão entre os que mais consomem internet no mundo, segundo dados da ITU (União Internacional de Telecomunicações) compilados pela ONU em 2024. Isso os torna mais propensos a esbarrar com esses vídeos no feed.
Além do conteúdo problemático, são produções de baixa qualidade, apelativas, curtas e cheias de ganchos viciantes. Quem produz sabe como prender a atenção. E tem mais um problema: essas novelinhas não têm classificação indicativa nem restrição de idade. Qualquer pessoa pode assistir em qualquer rede, incluindo crianças, mesmo com temas adultos, violência e conotação sexual.
Uma história que não pertence a ninguém
As Novelinhas não têm autoria conhecida. Pela facilidade de produzir com IA, qualquer pessoa pode criar e publicar uma dessas histórias. E aí entra o problema mais grave de todos: ninguém é responsabilizado pelo conteúdo, já que não existe identificação de autoria.
Esse é exatamente o tipo de cenário que mostra o quanto é urgente o controle das Big Techs e a regulação das IAs. Não basta responsabilizar usuários: as plataformas precisam ter ferramentas para impedir a produção e a publicação desse tipo de conteúdo.
O que fazer com isso?
Conversar é o primeiro passo. Se você convive com adolescentes, vale puxar o assunto sem julgamento, perguntar se eles já viram esses vídeos e abrir espaço para discutir o que está por trás daqueles personagens fofinhos. Crianças e jovens absorvem padrões de comportamento mesmo quando não percebem, e o desenho animado da vez está dizendo, em alto e bom som, que mulher infiel é a regra e violência contra elas é piada.
Não é exagero. É a próxima geração sendo formada por algoritmos e por conteúdos que ninguém assina.
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