Como a indústria da nicotina recriou o cigarro para mirar nas meninas
Vapes coloridos, sabores de fruta e influenciadoras fumando em editoriais de moda. Por trás da "nova estética", uma estratégia antiga com um alvo bem definido: as adolescentes.
Você está rolando o feed quando esbarra naquela influenciadora "clean girl": a musa da pele iluminada, do skincare religioso, do pilates, das corridas, do shape slim. A vida saudável em pessoa. Até que, em uma das fotos, lá está ela com um cigarro na mão. Tem algo errado nessa imagem, ainda mais quando os efeitos do cigarro são exatamente o contrário de tudo o que ela vende.
Não é descuido, nem coincidência. É estratégia. Faz tempo que a indústria da nicotina vem se reinventando, e ela encontrou um novo público-alvo. Esqueça a imagem hollywoodiana do homem de terno e gravata, aquele cigarro que lembra seu pai ou seu avô. O alvo agora são as meninas. Sim, adolescentes.
A reinvenção do cigarro
Além do cigarro tradicional, que ganhou versões com sabores, a indústria investiu pesado em novos produtos: os vapes e as bolsas de nicotina. São coloridas, com sabores que lembram frutas e até doces. Uma espécie de "bala" que ainda não virou moda no Brasil, mas já faz sucesso entre jovens da Europa e dos Estados Unidos.
Tem dado certo
Os números mostram que a estratégia funciona. No Brasil, 31,7% das meninas entre 14 e 17 anos já experimentaram cigarros eletrônicos. E há um dado inédito e preocupante: pela primeira vez na história do país, as meninas estão fumando mais que os meninos.
A escalada também é rápida. Em apenas cinco anos, a experimentação de vape entre adolescentes quase dobrou, saltando de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024. Os dados são da pesquisa PeNSE, do IBGE, de 2024.
Uma estratégia que já tem mais de 60 anos
Quem viveu os anos 90 e 2000 talvez reconheça o roteiro. Lá nos anos 60, a indústria fez exatamente a mesma coisa: criou cigarros mais finos, embalagens femininas e associou o tabaco à beleza, liberdade e sucesso. Mudou a década, mas o manual continua o mesmo.
Hoje, a glamourização acontece nas telas. Nomes como Hailey Bieber, Kylie Jenner, Sabrina Carpenter e Dua Lipa aparecem em editoriais de moda fumando, como se o cigarro fosse mais um acessório estiloso. O recado para quem está do outro lado da tela, em plena formação, é que fumar é bonito, moderno e desejável.
O preço que o corpo paga
Apesar da roupagem moderna, esses produtos causam danos iguais ou até piores que o cigarro tradicional. Eles são vendidos como algo inofensivo, um "vaporzinho" saudável, mas estão cheios de substâncias tóxicas, propositalmente viciantes, que atacam principalmente os pulmões. Veneno sabor chiclete, algodão doce, morango e melancia.
Nas meninas, os efeitos atingem o corpo inteiro. A nicotina bloqueia a produção de estrogênio, desregula o ciclo menstrual, aumenta cólicas e TPM e pode até antecipar a menopausa. Eleva o risco de câncer de mama, colo de útero, ovário e pulmão. Envelhece a pele precocemente, mancha os dentes e aumenta o risco de AVC e infarto. E porque o cérebro segue em desenvolvimento até os 25 anos, ela prejudica memória e concentração e ainda intensifica quadros de ansiedade e depressão. (ACT Promoção da Saúde, Jornal da USP / InCor, SBPT)
O que isso tem a ver com você
Se você é mãe, tia, professora ou simplesmente convive com adolescentes, vale prestar atenção. A geração de meninas de hoje está sendo alvo de uma indústria bilionária que aprendeu a se disfarçar de estilo de vida, sabor de fruta e foto de influenciadora.
Conversar continua sendo o primeiro passo. Mostrar o que existe por trás da embalagem colorida, nomear a estratégia e desmontar a ideia de que fumar é glamouroso é uma forma concreta de proteção. A gente não precisa fingir que não viu, ainda mais quando já conhece esse filme de outras décadas.
Na Girl Up Brasil, meninas lideram a luta pela própria saúde, autonomia e direitos. Apoie esse movimento fazendo a sua doação.