Violência menstrual: você sabe o que é?
O conceito nasceu da escuta de quase 200 meninas brasileiras e chegou até a ONU. Entenda o que ele nomeia e por que reconhecer é o primeiro passo.
Você sente que, quando fala de suas dores menstruais, ou não acreditam em você ou simplesmente não levam a sério? Já faltou absorvente e ninguém fez nada? Seu médico usou palavras que você não entendeu e você saiu da consulta sem saber o que tinha? A escola anotou a sua falta, mas ninguém perguntou se você estava bem?
Essas situações parecem distantes umas das outras, mas têm algo em comum. E têm um nome: Violência Menstrual. É o conjunto de práticas, omissões e estruturas que negam, dificultam, minimizam ou distorcem os direitos relacionados à saúde menstrual de meninas, mulheres e pessoas que menstruam.
Um conceito que veio da escuta de meninas
Esse conceito não saiu de um escritório nem de um livro importado. Ele nasceu de conversas reais com meninas reais, de norte a sul do Brasil.
Em 2025, a Girl Up Brasil construiu um ecossistema de escuta com quase 200 meninas de mais de 20 clubes em todas as regiões do país, incluindo 12 estados brasileiros. Usando o WhatsApp como ferramenta, a organização coletou relatos sobre dor, acesso e dignidade. Vieram histórias do Amazonas, do Amapá, da Bahia, de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de muitos outros lugares.
"Esse conceito não saiu de um escritório nem de um livro importado. Ele nasceu de conversas reais com meninas reais, de norte a sul do Brasil", conta Munah Malek, gerente de projetos da Girl Up Brasil.
"O que essas meninas disseram foi tão claro e consistente que os próprios conceitos emergiram dos relatos. Elas descreveram o que viviam; a Girl Up Brasil nomeou." Como resumiu uma das participantes, é sobre "vulnerabilidade e invisibilidade sobre a menstruação".
Em março de 2026, esses conceitos foram apresentados na CSW70, a Comissão sobre o Status da Mulher das Nações Unidas, em Nova York, em um evento do qual foram parceiras a Girl Up Brasil, o Instituto Alana e a Vital Strategies. Violência menstrual, racismo menstrual, capacitismo menstrual e bullying menstrual nasceram da escuta de meninas brasileiras e chegaram à mesa mais importante do mundo sobre direitos das mulheres.
Por que chamar de "violência"?
A palavra "violência" num contexto de saúde não é exagero. Ela nomeia a negativa de cuidado, de escuta e de atendimento digno. Quem nunca ouviu, em casa, na escola ou na consulta, frases como "é só uma dor, vocês são muito dramáticas", "larga de ser mole" ou "quando engravidar, passa"?
A violência aparece de muitas formas:
No acesso, quando falta absorvente, água limpa ou banheiro em condições de uso.
No silêncio, quando ninguém explica o que é a menstruação ou quando passam um monte de anticoncepcionais antes sequer de oferecer caminhos.
Na desinformação, quando circulam fake news e meninas aprendem que menstruar é "castigo".
No atendimento, quando profissionais de saúde não acreditam na dor ou usam palavras difíceis sem explicar.
Na omissão institucional, quando a escola não tem protocolo de acolhida, o trabalho não permite pausas e o governo não investe em cuidado integral.
Não fazer nada — a omissão — também é violência. E ela é mais comum do que parece: uma pesquisa publicada no The Lancet Regional Health – Americas, em 2024, mostrou que entre 25% e 33% dos pediatras nos Estados Unidos não discutiam menstruação nas consultas de rotina, e menos de 10% registravam um histórico menstrual completo no prontuário.
Uma violência de gênero, com vítimas mais expostas
Privar pessoas que menstruam de apoio, informação e cuidado é uma forma de violência de gênero. Não é acidente: é um padrão histórico e estrutural. E ele atinge de forma desproporcional meninas negras, quilombolas, ribeirinhas, indígenas, periféricas e com deficiência.
Por isso o conceito se desdobra em outros três:
Racismo menstrual: aparece quando profissionais minimizam a dor de mulheres negras, sustentados pelo mito sem base científica da "maior tolerância à dor", ou quando comunidades quilombolas e indígenas ficam de fora das políticas públicas, ou têm seus saberes e práticas ancestrais desacreditados por um suposto "cientificismo".
Capacitismo menstrual: se manifesta em banheiros sem adaptação, na falta de materiais adaptados, na negativa da possibilidade de autonomia de escolha sobre o menstruar e na falta de diálogo que inclua meninas com diferentes deficiências, sejam elas físicas ou intelectuais.
Bullying menstrual: acontece na escola e vai das piadas e apelidos à exposição de manchas, dos memes em grupos de WhatsApp à própria estrutura escolar que não tem banheiro privativo nem protocolo para acolhimento cuidadoso da menstruação.
Reconhecer é um ato político
Muitas dessas situações parecem normais porque "sempre foram assim". Mas normalizar não é o mesmo que aceitar, e nomear não é o mesmo que exagerar.
Foi o que viveu Mariana, líder Girl Up do clube Virtude:
"Eu já achei que menstruar fosse um castigo por tudo que passei nessa vida. Hoje sei que o que vivi foi negligência e isso não pode acontecer mais."
Hoje com 20 anos, ela precisou de dez anos, uma peregrinação por unidades de saúde, uma anemia e um ovário perdido para ter suas queixas reconhecidas.
Quando se identifica uma situação como violência menstrual — seja no banheiro da escola, na consulta que não acolheu ou na política pública que não existe — é possível dizer: isso não é inevitável, tem responsável e pode mudar.
Atenção: se você passou por isso, fale com alguém de confiança e denuncie. Existem canais gratuitos: o Disque 100 (direitos humanos), o Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher) e a Ouvidoria do SUS, no 136 (violência no atendimento de saúde). A denúncia coletiva tem ainda mais força.
Para que todas sejam livres para menstruar.
A Girl Up Brasil forma líderes jovens que enfrentam injustiças como a violência menstrual e constroem mudanças reais. Apoie a gente e invista em lideranças que transformam o futuro.