Há uma mancha vermelha no Trono de Ferro
House of the Dragon colocou uma rainha para menstruar diante de milhões de pessoas. E o que parecia detalhe de roteiro diz muito sobre por que a menstruação ainda incomoda nos espaços de poder.
Rhaenyra Targaryen esperou duas temporadas inteiras para sentar no Trono de Ferro. Quando finalmente senta, depois de guerra, luto e a suspeita permanente de que mulher não governa, o que House of the Dragon mostra não é a glória que a gente esperava. É a rainha menstruando.
A monarca sangra, xinga, manda buscar os panos e passa o episódio inteiro tentando reinar enquanto o corpo faz o que o corpo faz, sem pedir licença nem escolher a hora. A menstruação atravessa metade de nós por décadas e quase nunca aparece nas telas. Dessa vez, encontrou lugar no trono.
A fantasia de poder que sempre veio sem corpo
Vale medir o tamanho dessa ausência. A cultura pop nos deu rainhas, guerreiras, presidentas, assassinas de elite, mulheres poderosas em todas as variações imagináveis. Em nenhuma delas o sangue mensal encontrou espaço.
A própria Daenerys Targaryen é o exemplo mais eloquente. Descendente de Rhaenyra na cronologia, mas nossa lembrança mais antiga. Contrabandeada pelo irmão rumo a um casamento arranjado, forjada nas provações mais duras, a menina de olhar inocente virou diante de nós a mulher dragão. Acompanhamos cada humilhação, cada luto, cada estupro da saga dela por reivindicar poder. Nunca a vimos menstruar.
A mensagem era clara: a mulher pode ser poderosa, desde que devidamente higienizada de tudo aquilo que faz dela, na carne, uma mulher.
O silêncio nunca foi neutro
Quando um tema é trancado na esfera íntima e coberto pelo manto da vergonha, ele não some. Só deixa de ser tratado como assunto coletivo, público, resolvível.
A menstruação relegada à masmorra tem nome e endereço. É a menina que falta à aula porque não tem absorvente. É a mulher que não nomeia uma dor porque aprendeu que daquilo não se fala. É metade da população administrando sozinha, no escuro e às próprias custas, uma condição básica da própria existência. A vergonha adoece, faz evadir da escola e empobrece.
O contrário também é verdadeiro
E o Brasil vem provando isso com competência. Em janeiro de 2024, o Programa Dignidade Menstrual começou a entregar absorventes pela rede do Farmácia Popular. Hoje as beneficiárias já passam de 2,5 milhões, e adolescentes de 12 a 16 anos retiram seus absorventes sem precisar de responsável.
A menina que faltava à aula por falta de absorvente agora tem onde buscá-lo, de graça, porque em algum momento alguém disse a palavra em voz alta num plenário.
A saúde conta a mesma história. Um estudo da Vital Strategies analisou os prontuários de 469 mil meninas e mulheres atendidas pelo SUS em Recife e encontrou a dor menstrual escondida. Nos códigos oficiais de doenças, ela aparece em apenas 0,5% das pacientes. Mas quando uma inteligência artificial leu os campos abertos dos prontuários, onde as queixas ficam anotadas sem virar registro, o número saltou para 9%. Vinte e uma vezes mais.
A dor existe e é relatada. O sistema é que não a conta. E o que o sistema não conta, ele não cuida. Não à toa, em junho de 2026, o governo federal e o Instituto Alana anunciaram R$ 60 milhões para pesquisa em endometriose, dor pélvica e saúde menstrual, o maior investimento do tipo já feito no país. Nomeado o problema, vêm o estudo, os protocolos e, enfim, o cuidado.
A série já vinha ensaiando
House of the Dragon já cutucava essa ferida antes. Na primeira temporada, Rhaenyra chega a uma reunião do Pequeno Conselho recém-saída de um parto, e seu leite vaza pela roupa na mesa onde se decide o destino do reino. Acidente de roteiro? De jeito nenhum. Ali a série já perguntava por que a fisiologia de metade da humanidade é tratada como intrusa nos espaços de poder.
Há uma mancha vermelha no Trono de Ferro, e ela nos enche de orgulho e esperança. O poder nunca exigiu um corpo neutro. O corpo que sangra também habita a vida pública. O corpo que sangra também governa.
A Girl Up Brasil forma líderes jovens que enfrentam injustiças como a violência menstrual e constroem mudanças reais. Apoie a gente e invista em lideranças que transformam o futuro.